- Associação de Vítimas confrontou a Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) com relatos emotivos de dupla revitimização no processo de reparação financeira e psicológica.
- Defendido o princípio da dupla responsabilização: quer a Igreja Católica quer o Estado Português têm o dever ético, moral e legal de assegurar a reparação integral e a proteção dos sobreviventes.
- CEP aceitou integralmente a ordem de trabalhos e mostrou-se recetiva à criação de um fundo de emergência para vítimas discriminadas e de extrema vulnerabilidade e a um acompanhamento psicológico ativo.
- Sobreviventes exigem auditoria externa e independente ao processo antes que esta seja imposta pelo Parlamento.
- Nova reunião técnica de trabalho será agendada para breve.
A Associação de Sobreviventes Vítimas de Abusos Sexuais no contexto da Igreja Católica em Portugal reuniu-se hoje com Sua Excelência, o Bispo D. Virgílio Antunes, seu vice Presidente D. José Carneiro e com o Secretário da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), Padre Manuel Barbosa.
O encontro, que misturou uma forte componente técnica com uma profunda e legítima carga emotiva, serviu para fazer o balanço crítico do processo de reparação em curso e exigir mudanças estruturais imediatas.
Durante a audiência, a CEP ouviu de viva voz três testemunhos concretos de sobreviventes. Os relatos descritivos provaram de forma inequívoca a injustiça e a dupla revitimização causadas pelas falhas operacionais do atual modelo.
O processo, que deveria trazer paz, respeito e dignidade, acabou por falhar e infligir ainda mais sofrimento aos sobreviventes.
“A Igreja falhou no teste da moralidade e da justiça, mas tem agora uma segunda oportunidade para corrigir o que correu mal”
O princípio da dupla responsabilização: Igreja e Estado
Um dos pontos centrais vincados na reunião foi a urgência de clarificar a dupla responsabilização que recai sobre a Igreja Católica e sobre o Estado Português.
A Associação defende firmemente que o sofrimento das vítimas não pode ficar refém de um vazio institucional ou de uma transferência de culpas:
- À Igreja Católica cabe a responsabilidade histórica, institucional e moral de assumir as falhas do seu processo de reparação infernal e infeliz, garantindo compensações justas, transparentes e a reabertura de processos canónicos arquivados injustamente.
- Ao Estado Português cabe a responsabilidade civil, constitucional e de saúde pública de fiscalizar a defesa dos direitos humanos dos seus cidadãos, garantir o acesso eficaz e sem atrasos ao Serviço Nacional de Saúde (SNS) para apoio psicológico e assegurar que a justiça comum atua face às falhas identificadas.
Nesse sentido, a Associação propôs à CEP a constituição imediata de um grupo de trabalho independente, composto por personalidades da sociedade civil, para avançar com uma auditoria externa urgente, permitindo à Igreja assumir a sua responsabilidade e corrigir as lacunas antes que a mesma auditoria venha a ser obrigatoriamente imposta por via parlamentar.
A bola está agora do lado da Igreja.
Agenda aceite na íntegra e novas conquistas
A Ordem de Trabalhos apresentada pelos representantes das vítimas foi integralmente cumprida, aceite e reconhecida pela CEP, assente em seis eixos inegociáveis:
- Transparência financeira: Esclarecimento sobre os critérios de cálculo e cortes nas compensações, exigindo-se uma Auditoria Externa Urgente a todo o processo.
- Fim das cláusulas de renúncia: Eliminação da renúncia a ações judiciais futuras no Termo de Recebimento.
- Acesso à informação: Direito das vítimas à consulta individual do seu processo.
- Apoio psicológico eficaz: Resolução dos atrasos do Grupo VITA e transição para o SNS.
- Reabertura de processos: Reapreciação dos casos arquivados pelas instâncias canónicas onde a verosimilhança do sofrimento já tinha sido reconhecida.
- Participação associativa: Inclusão permanente das associações nas decisões do processo.
O diálogo aberto permitiu ainda alcançar o acolhimento da CEP para duas novas propostas cruciais trazidas de forma espontânea pelos sobreviventes:
- Combate ao Isolamento Social: Alerta para a discriminação e perda de apoios locais que as vítimas enfrentam, sobretudo em meios pequenos, por terem “dado a cara”. Foi sugerida a criação de um fundo de emergência de resposta rápida para situações de extrema vulnerabilidade.
- Fiscalização do Apoio Psicológico: Monitorização do percurso terapêutico de cada vítima para evitar situações de abandono por falhas na consulta, permitindo a mudança de psicólogo sempre que necessário.
Compromisso de continuidade
Os sobreviventes vincam que exigem fazer parte integrante de todos os grupos de trabalho e decisões futuras. Perante os resultados desta primeira abordagem, as reuniões de trabalho com a CEP serão para repetir, sendo o próximo encontro agendado para breve com o objetivo de regulamentar e desenvolver a criação do fundo de emergência e os mecanismos de auditoria.
Porta-voz / Fundador — Associação DAR VOZ AO Silêncio
Manuel Fernandes, Eng.
Contactos
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Documentos e ligações
Comunicado de Imprensa — Reunião com a CEP (PDF)
Documento oficial enviado à comunicação social no final da reunião com a Conferência Episcopal Portuguesa.
