Associação DAR VOZ AO Silêncio
Carta AbertaAbusos na Igreja

Carta Aberta às Vítimas de Abusos Sexuais na Igreja Católica em Portugal e à Sociedade Civil

Carta aberta da Direção da Associação DAR VOZ AO Silêncio às vítimas, aos sobreviventes, à comunicação social e à sociedade civil, no momento em que se inicia o debate parlamentar sobre as compensações às vítimas de abusos sexuais na Igreja Católica em Portugal.

MAIA, 21 de setembro de 2026

No momento em que o debate público em torno das compensações financeiras e do acompanhamento às vítimas de abusos sexuais na Igreja Católica em Portugal atinge um ponto FULCRAL com o início do debate parlamentar, a Associação DAR VOZ AO Silêncio considera imperativo dirigir-se publicamente a todos os que, direta ou indiretamente, partilham desta exigência de justiça e dignidade, de forma a repor a verdade dos factos.

A nossa associação nasceu de uma necessidade diagnosticada, legítima, normal e legal de alargar e fortalecer a rede de apoio a quem foi silenciado durante décadas, dando VOZ a todos os sobreviventes que ainda não tiveram coragem de falar e aos que já assumiram essa coragem de falar e dar a cara pela causa.

Lamentamos profundamente que a Associação Coração Silenciado não tenha conseguido lidar de forma positiva com o surgimento desta nova entidade, uma vez que foram apresentados ao CS os motivos e as razões que levaram ao aparecimento de uma nova Associação — os quais, em nossa opinião, devem ser respeitados, pois todos somos livres de tomar este tipo de decisões.

Todos os passos para a criação da DAR VOZ AO Silêncio foram por nós partilhados com total transparência junto do Coração Silenciado, razão pela qual estranhamos a estranheza “passe a redundância”, na reação manifestada pelo seu porta-voz ao OBSERVADOR.

A desculpa encontrada para justificar a demarcação institucional não faz qualquer sentido.

Cumprimos rigorosamente o que havia sido conversado na última reunião do Coração Silenciado em que participámos, no dia 4 de agosto de 2026.

Na altura, apresentámos uma candidatura legítima à liderança daquela associação, respondendo aos apelos de várias vítimas para que continuássemos a canalizar a nossa energia, assertividade e capacidade de iniciativa naquele espaço.

Contudo, essa possibilidade foi bloqueada em Assembleia Geral, de forma organizada, para evitar uma mudança de liderança.

Perante a ausência de condições internas para impor um ritmo ativo de iniciativa e assertividade — face a uma constante tentativa de resfriar a nossa capacidade de ação —, restou-nos avançar, legitimamente e de cabeça erguida e com coragem, com o projeto de uma nova associação, que eu lidero com sentido de missão.

Tenho total consciência da responsabilidade que assumo ao representar os sobreviventes, que para mim o são todos, sem exceção nem exclusão de quem quer que seja.

Também a entrega do Dossier Parlamentar seguiu o que sempre foi falado. Reafirmamos que este documento é da nossa autoria e propriedade intelectual. Elaborámo-lo e disponibilizámo-lo para receber contributos válidos que acrescentassem valor.

Ficou acordado, na reunião de 4 de agosto de 2026, que se realizaria uma nova reunião no final desse mês para decidir como e quando enviar o documento ao Parlamento.

Estranhamente, essa reunião nunca aconteceu (pois era onde eu iria informar e propor a minha auto-exclusão do grupo do CS), e as nossas insistências ficaram sem resposta.

Esperámos até setembro. Para não prejudicar a causa e evitar divisões, tomámos a decisão responsável de avançar com o envio do dossier no dia 4 de setembro de 2026, subscrito por ambas as associações.

Fizemo-lo de boa-fé, cientes de que avançar apenas com a nossa assinatura seria, aí sim, um motivo legítimo de fricção e divisão.

O que estaria a ser dito se não o tivéssemos feito com o devido sentido de responsabilidade?

Se o objetivo fosse dividir, não teríamos partilhado a subscrição do documento.

A DAR VOZ AO Silêncio não quer, não promove e nunca promoverá divisões. Por essa razão, enviámos recentemente, no dia 16 de setembro de 2026, uma carta oficial e formal à Direção da Associação Coração Silenciado (Junto em Anexo), apelando ao diálogo, à responsabilidade e à coordenação entre as duas lideranças, estando ainda hoje à espera de uma resposta igualmente oficial e formal do Coração Silenciado, tendo a DAR VOZ AO Silêncio ficado a saber da demarcação institucional do CS pela comunicação social.

Ambas as organizações têm de assumir as suas responsabilidades para com os sobreviventes.

Esta causa não se compadece com protagonismos e inseguranças pessoais.

Deixamos três questões para reflexão pública

  1. Por que razão o Coração Silenciado não consegue ainda aceitar e adaptar-se à nova realidade, com a criação legítima de uma nova Associação que comunga dos mesmos objetivos?
  2. Por que razão o CS tomou iniciativa e propôs a criação de um GRUPO no WhatsApp, o qual foi criado com o nome de “CANAL OFICIAL DIALOGO ASSOCIAÇÔES”, onde tentamos organizar uma reunião de trabalho, tendo sempre tido como resposta o silêncio do CS, até que o seu porta-voz sem motivo nenhum que justificasse decidiu sair unilateralmente do grupo que os próprios sugeriram criar?
  3. E por que se foca na divisão em vez de se focar na união para lutarmos juntos partilhando a indignação face à forma desrespeitosa e opaca como este infeliz processo de reparação tem sido conduzido pela Igreja?

Ambas as entidades deveriam trabalhar de forma articulada para, juntas, conseguirem Dar Voz às pessoas que não sabem como lidar com estas questões e se fecham/isolam num silêncio corrosivo e destruidor, com consequências brutais para as suas vidas (temos associados que se encontram em situações socialmente muito degradantes e preocupantes, aos quais estamos, na medida do possível, a tentar dar resposta às necessidades).

O processo de compensações atual é desastroso e imoral, provocando uma DUPLA REVITIMIZAÇÃO e intensificando um sofrimento que já é corrosivo e destruidor.

Registamos, por isso, com agrado que a Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) tenha já demonstrado publicamente a sua recetividade para colaborar com a AUDITORIA URGENTE que nós exigimos ao Estado.

O Estado deve também assumir as suas responsabilidades, pois as crianças que fomos tinham sido entregues pelo Estado à guarda de quem, mais tarde, lhes fez mal.

Uma reivindicação que a DAR VOZ AO Silêncio faz, e pela qual vai lutar, é precisamente a defesa da DUPLA RESPONSABILIZAÇÃO, quer da Igreja, quer do Estado Português.

Na opinião dos sobreviventes que representamos, ambos são responsáveis, uma vez que a proteção devida às crianças cuja guarda estava a seu cargo não se verificou, tendo o Estado falhado nessa missão e responsabilidade perante crianças indefesas e vulneráveis.

É fundamental que esta fiscalização avance para corrigir um processo que tem sido conduzido de forma irregular, imoral e focado na defesa da imagem pública da Igreja, sobrepondo-se ao respeito e à dignidade dos sobreviventes.

Os representantes dos sobreviventes vítimas devem ser envolvidos em todos os grupos de trabalho e consequentemente devem ser ouvidos em todas as decisões que venham a ser tomadas no presente e no futuro, inclusive devemos ser envolvidos de forma a termos uma participação activa na AUDITORIA que reclamamos ao ESTADO que seja realizada com URGÊNCIA.

Este é um tipo de abuso que todos devemos repudiar e condenar como sociedade evoluída que queremos e devemos ser.

É por esta razão que consideramos urgente o envolvimento das instituições democráticas para repor a legalidade, a moralidade e o respeito que os sobreviventes merecem.

Sublinhamos que a DAR VOZ AO Silêncio já ultrapassou a fase de meramente solicitar audiências; estamos na fase da concretização e as reuniões estão a acontecer.

O nosso agendamento segue com normalidade, demonstrando uma boa recetividade e um responsável interesse por parte dos diversos quadrantes políticos e eclesiais, o que registamos com agrado e agradecemos.

O nosso calendário institucional está fixado e reflete avanços cruciais

  • A primeira audiência oficial na Assembleia da República está agendada para o próximo dia 29 de setembro de 2026, às 16h00, com o primeiro Grupo Parlamentar.
  • Como fruto da troca de correspondência com um deputado único representante de um partido, o mesmo tomou já a iniciativa de avançar com o desenvolvimento de duas iniciativas parlamentares concretas decorrentes da receção do Dossier Parlamentar por nós enviado.
  • A nível eclesial, temos já confirmada uma reunião com a Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), que terá lugar no dia 1 de outubro de 2026, às 11h00, em Fátima.
  • Conforme já é do conhecimento público, foi submetido no passado dia 28 de agosto de 2026 um pedido oficial de audiência à Presidência da República. Aguardamos serenamente o seu respetivo agendamento, convictos de que teremos contributos de extrema validade e relevância acrescentar perante o Senhor Presidente da República Portuguesa.
  • Outras reuniões encontram-se em fase de agendamento e serão oportunamente comunicadas ao público.

Nota à comunicação social: um apelo ao tratamento equitativo

Não podemos deixar de registar, com profunda estranheza, a forma como a DAR VOZ AO Silêncio tem sido secundarizada pela comunicação social em geral.

Iniciativas de extrema relevância social, devidamente detalhadas nos nossos Comunicados de Imprensa N.º 1 e N.º 2, têm sido relegadas para segundo plano, não recebendo o destaque e a importância que a causa exige.

Sem querer, nesta fase, falar de uma tentativa deliberada de silenciamento, assumimos o facto de a comunicação social estar a precisar de muito tempo para começar a tratar com igualdade/equidade as duas associações representativas dos sobreviventes vítimas da Igreja.

Relembramos que ambas têm a mesma legitimidade e merecem ser tratadas da mesma forma.

A sociedade portuguesa não compreenderá a razão para se discriminar uma nova associação que legitimamente luta pelos direitos das vítimas, sendo a VOZ assertiva e com a estratégia que faltava nesta missão de vida.

É de relevante importância que este tema seja falado e pensado para sensibilizar e preparar a sociedade, as instituições e as entidades públicas e privadas, contribuindo de forma preventiva para minimizarmos este tipo de abuso que, como sabemos, infelizmente acontece até em ambiente familiar. Esperamos que, o mais rápido possível, os órgãos de informação se adaptem a esta nova realidade de duas associações, facto que continua a ser omitido em recentes artigos jornalísticos.

A nossa voz é e continuará a ser a VOZ do Silêncio, guiada pelo lema inequívoco que dita a nossa missão. Existimos para:

“Transformar a dor em AÇÃO e o sofrimento em LIBERTAÇÃO”

Manteremos sempre as portas abertas ao diálogo e por essa razão recusamos alimentar este tipo de inverdades, pois o que nos move é a defesa da causa sendo esse o nosso FOCO, não nos deixando envolver e ser arrastados para controvérsias unilaterais que em nada contribuem para a CAUSA que defendemos, lamentando que estas distrações venham de dentro da nossa casa, a casa dos sobreviventes vítimas.

A defesa da CAUSA estará sempre em primeiro lugar e, com ou sem colaboração institucional entre as duas Associações, a DAR VOZ AO Silêncio fará o seu caminho de forma assertiva e objectiva.

Pela Direção da Associação DAR VOZ AO Silêncio

Manuel Fernandes, Eng.

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